Um perfil dominante não garante estabilidade emocional: o que 2.571 avaliações comportamentais revelam
26/8/2026
Leandra Cortelleti

Durante um processo seletivo ou na avaliação de um líder, é comum fazermos associações quase automáticas.

Um profissional com postura firme costuma ser visto como alguém preparado para enfrentar desafios. Quem se comunica com segurança transmite confiança. E, muitas vezes, acabamos concluindo que essas características também indicam equilíbrioemocional, resiliência e capacidade para lidar com pressão.

Mas será que isso realmente acontece?

Uma análise realizada com 2.571avaliações comportamentais do NIIL Assessment mostrou que não.

Os dados revelam que um perfil dominante pode transmitir segurança e firmeza, mas isso nãosignifica, necessariamente, que a pessoa possua maior estabilidade emocional ou esteja mais preparada para enfrentar situações de alta pressão.

Essa é uma descoberta importante para quem trabalha com recrutamento, desenvolvimento de lideranças e gestão de pessoas.

O que analisamos?

O objetivo do estudo foi compreender como os principais fatores comportamentais se relacionam entre si.

Foram avaliados seis fatores presentes no NIIL Assessment:

  • Dominância
  • Resiliência
  • Otimismo
  • Controle Emocional
  • Extroversão
  • Abertura às Experiências

A pergunta era simples: quando uma pessoa apresenta um nível elevado em um desses fatores, isso significa que ela também tende a apresentar níveis elevados nos demais?

A resposta mostrou que nem sempre.

Dois grupos comportamentais bastante diferentes

Os resultados evidenciaram que cinco fatores (Resiliência, Otimismo, Controle Emocional,Extroversão e Abertura) apresentam uma relação consistente entre si.

Na prática, isso significa que pessoas emocionalmente mais equilibradas tendem, também, ademonstrar maior capacidade de adaptação, uma visão mais otimista e mais facilidade para lidar com mudanças e relacionamentos.

Já a Dominância apresentou um comportamento completamente diferente.

Ela teve uma relação moderada apenas com a Extroversão e praticamente nenhuma associação com Resiliência, Controle Emocional ou Otimismo.

Esse resultado nos leva a uma conclusão importante: ser um profissional mais dominante não significa, necessariamente, possuir maior inteligência emocional ou maior capacidade para lidar com pressão.

São competências diferentes e precisam ser avaliadas de forma independente.

O impacto dessa descoberta nos processos seletivos

Esse resultado ajuda a explicar um dos vieses mais comuns durante entrevistas.

É natural que candidatos mais comunicativos, seguros e com postura firme causem uma excelente primeira impressão.

No entanto, impressão não é evidência.

Os dados mostram que uma pessoa pode demonstrar forte capacidade de influência e tomada de decisão, mas ainda apresentar dificuldades para lidar com frustrações, mudanças, conflitos ou pressão constante.

Da mesma forma, profissionais mais discretos podem possuir excelente estabilidade emocional e tomar decisões extremamente consistentes, mesmo sem adotar uma postura dominante.

Por isso, confiar apenas na percepção da entrevista aumenta o risco de decisões equivocadas.

O que issosignifica para as empresas?

Os resultados trazem aprendizados importantes para a gestão de pessoas.

Na seleção de líderes, avaliar separadamente fatores como Resiliência, Controle Emocional e Otimismo reduz o risco de promover profissionais apenas porque demonstram segurança ao se comunicar.

Em posições técnicas ou de especialistas, candidatos menos expansivos não devem ser descartados por aparentarem menor firmeza. Muitas vezes, o diferencial competitivo está justamente na capacidade de manter o equilíbrio emocional diante de situações complexas.

Nos programas de desenvolvimento, os dados também mostram um caminho interessante. Como Resiliência, Controle Emocional e Otimismo estão fortemente relacionados, desenvolver uma dessas competências tende a gerar impactos positivos nas demais. Já a Dominância exige estratégias específicas de desenvolvimento.

E fatores como idade, gênero e escolaridade?

Também avaliamos possíveis diferenças entre esses grupos.

As variações encontradas foram pequenas.

Observou-se apenas uma leve tendência de aumento da Dominância com a idade, enquanto fatores como Resiliência e Otimismo permaneceram relativamente estáveis entre diferentes faixas etárias.

As diferenças relacionadas ao gênero e ao nível de escolaridade também foram discretas.

Isso reforça um ponto importante: esses dados ajudam a compreender tendências populacionais, mas não devem ser utilizados para rotular pessoas ou orientar decisões individuais de contratação ou promoção.

Cada profissional possui uma combinação única de competências comportamentais.

Uma avaliação comportamental baseada em evidências

Talvez o maior aprendizado desta análise seja a necessidade de separar percepção de evidência.

Durante uma entrevista, é fácil associar segurança, boa comunicação e postura firme à capacidade de liderar sob pressão.

Os dados mostram que essa relação não é automática.

Avaliações comportamentais estruturadas permitem enxergar competências que muitas vezes não aparecem em uma conversa de uma hora.

Elas não substituem o olhar do recrutador ou do gestor. Ao contrário, oferecem informações objetivas que reduzem vieses e tornam as decisões mais consistentes.

No fim, a melhor contratação não acontece quando escolhemos quem causa a melhor impressão. Ela acontece quando conseguimos compreender, de forma mais profunda, o comportamento que realmente sustentará o desempenho daquela pessoa ao longo do tempo.

Metodologia

Este estudo foi realizado a partir de uma base de 2.571 avaliações completas do NIILAssessment.

A análise investigou a relação entre os seis fatores centrais da metodologia por meio detestes estatísticos de correlação, permitindo identificar quais competências comportamentais tendem a se desenvolver em conjunto e quais são independentes entre si.

O NIIL Assessment é uma metodologia fundamentada no modelo Big Five de Personalidade e validada estatisticamente por meio de estudos de correlação.

E na sua experiência, quantas vezes um profissional muito seguro durante a entrevista não correspondeu ao desempenho esperado no dia a dia?

Leandra Cortelleti
Psicóloga, CEO da LeWarPro e especialista em Atração e Desenvolvimento de Talentos.
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